quinta-feira, 24 de janeiro de 2013 | By: Mel Santos

Levo minha identidade


Quantas inutilidades acumuladas
nesse armário empoeirado...roupas
que não uso,sapatos que me apertam 

os calos...

Mexer nele é revirar-me por dentro...
Tudo que pensei que fosse para sempre
se desfaz como poeira,ele me conta histórias

de entulhos vividos...


Gostaria de ir sem levar nada, simplesmente ir...
Queria mudar o "guarda-roupa",como estou mudando 

os caminhos...como desejo a mudança em mim...
Nascer de novo!É...nascer,pois renascer é levar consigo os karmas...

Embora a escolha seja minha,o que levou-me à escolha?Eu!
No entanto, romper laços [nós] causa uma certa dor...angustia,

um mal estar da espera...[de um fim]...Como um vício...
uma abstinência? ...Mas do que?Da quebra do trato,
das horas contadas... Do fim!

...Um vício...Quase como segurar um cigarro... os dedos sentem falta,
pelo menos até apagar-se da pele o amarelo da nicotina...
tenho que esfregar e esfregar...e tornar a esfregar...

Já não havia mais cumplicidade,tampouco amor,só o domínio...

[como disse]"passarinho que foge da gaiola não volta",porém 
ainda me sinto na gaiola...de porta aberta,no limite da liberdade...
Um passo lá ,outro cá...presa à formalidade...[do alpiste]...
 

O que deixo,e o que levo desse armário?
Meus CDs que há tempos nem tenho prazer de ouvir...
Ah,não deixo! Meus livros? Quero-os todos!


Divido outras coisas sem valor emocional,[panos,móveis],esses não exercem
nenhum papel sobre mim...a não ser servir a empáfia...à mesa,a cama,a vida...
Coisas que, em virtude de serem para o que são, se vão com o tempo...
 

Tornam-se "mulambos"...menos o que sou...mas como diz um amigo:
"O que estou",pois ninguém "é"...
Olha,tenho um desejo enorme de "ser"...ou de "estar"em outro lugar!
 
[As minhas escritas,as quais nem assinei pra você não saber-me...eu levo;
Então,com certeza levarei minha identidade...nem vai saber quem sou...
tampouco quem fui...aliás,nunca quis sabê-lo]

Voltando ao armário: preciso revirá-lo...esvaziar as gavetas,sacudir a poeira,
rever as meias sem par que nunca joguei fora...as blusas já sem cor ...
os vestidos de outras décadas,calças que guardei na esperança de voltar
ao peso de outrora...ahhh,tudo "demodê"... menos esse momento de
revirada...[tão meu]...preciso fechar urgentemente essas portas...


 N. A.


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4 comentários:

Henrique Caldeira dos Santos disse...

Por vezes existem portas que não estamos preparados para abrir, talvez porque não seja o momento próprio para arrumarmos o que elas (portas) encerram.
Gosto do teu poema e a música enquadra-se na perfeição.

Mel Santos disse...

Olá Henrique,obrigada pelo comentário,olha só...nem ouso chamar de poema...a não ser pelo sentimento colocado nele...pelo eu lírico,isso é antes, um desabafo grotesco...mesmo que não estejamos prontos para abrir essas portas,a vida nos impulsiona a fechar... um grande abraço!

Malu Silva disse...

E quando levamos nossa identidade conosco tudo fica mais fácil de se alcançar...
Um abraço

Mel Santos disse...

Malu - até recuperar-mos a nossa identidade...ahhh! Todo recomeço é difícil...Bem sei!
Um beijo no coração e obrigada por estar aqui.

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